|
Definição
Lesões das vias aéreas caracterizadas pela obstrução ao fluxo aéreo não totalmente reversível. DPOC inclui bronquite crônica e enfisema.
Etiologia
A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é o produto do dano inflamatório às vias aéreas e da perda do recolhimento elástico secundária ao dano nas estruturas alveolares. Este dano leva a aumento da resistência das vias aéreas com redução do fluxo expiratório, importante indicador da gravidade da doença. O mecanismo inflamatório que resulta na DPOC é diferente da asma, com envolvimento de células como linfócitos T CD8, macrófagos e neutrófilos, além da interleucina 8 e do fator de necrose tumoral alfa. Entre os fatores desencadeantes destas alterações inflamatórias, o tabagismo, sem dúvida, é o mais importante. Outros desencadeantes são ocupações que envolvem a inalação de fumaça (fumaça de lenha), materiais particulados e infecções pulmonares graves na infância.
Clínica
A DPOC caracteriza-se por tosse crônica e produtiva, além de dispnéia de graus variados. Pacientes com doença mais avançada podem apresentar sinais de cor pulmonale (edema de membros inferiores e aumento do abdome). Alguns pacientes em estágios iniciais da DPOC podem apresentar-se assintomáticos.
Diagnóstico
O diagnóstico inicial baseia-se na história clínica, porém a espirometria sempre deve ser realizada para confirmação do diagnóstico. Ela mostra redução da VEF1 e da relação VEF1/ CVF, indicando obstrução do fluxo aéreo. Na DPOC, diferentemente da asma, a VEF1 e a CVF não melhoram significativamente (ao menos 150 ml ou 12%) após o uso de broncodilatadores, indicando a irreversibilidade da obstrução das vias aéreas. A radiografia de tórax pode ser normal ou mostrar sinais de hiperinsuflação pulmonar (aumento do volume pulmonar, hiperlucência, retificação diafragmática e aumento do espaço retroesternal). Nos casos mais avançados há sinais de hipertensão pulmonar (proeminência do arco da artéria pulmonar). Pacientes com doença pulmonar grave devem realizar gasometria arterial com o intuito de avaliar a presença de hipoxemia e hipercapnia.
Diagnóstico diferencial: asma, bronquiectasia, insuficiência cardíaca congestiva, bronquiolite, tuberculose.
Tratamento
- A cessação do tabagismo é fundamental para impedir a progressão da doença.
- Corticosteróides inalatórios (CI) (beclometa-sona, bude sonida, fluticasona, ciclesonida): indicados em pacientes com VEF1 menor que 50% do previsto e exacerbações freqüentes. Têm como mecanismo de ação a supressão da inflamação brônquica. O uso dos CI afeta pouco o eixo supra-renal, embora discretas elevações da glicemia, redução da velocidade de crescimento em crianças e hipoglicemia após a retirada do CI possam ocorrer. Os efeitos locais mais comuns são candidíase oral, rouquidão e aumento no risco de catarata. Todos estes efeitos são prevenidos com o uso da menor dose possível do CI, uso de espaçador quando utilizados dispositivos de aerossol dosimetrado e lavagem da boca após o uso da medicação.
- Broncodilatadores agonistas de longa duração (formoterol e salmeterol): utilizados na terapia de manutenção da DPOC com o intuito de aliviar os sintomas associados à obstrução brônquica, têm duração da ação de 12 horas. Agem relaxando a musculatura lisa, aumentando o clearance mucociliar e reduzindo a permeabilidade vascular. Como efeitos adversos provocam rouquidão, taquicardia, tremores, hipopotassemia e alargamento do intervalo QT.
- Broncodilatadores β2-agonistas de curta duração (salbutamol, terbutalina e fenoterol): utilizados como medicação de alívio no caso de exacerbação das crises de DPOC. Apresentam como efeitos adversos tremores, taquicardia, hipopotassemia e hiperglicemia.
- Anticolinérgicos de curta duração (brometo de ipatrópio): também são indicados como medicação de alívio nas crises de exacerbação da DPOC, combinados ou não aos β2-agonistas de curta duração. Agem bloqueando receptores colinérgicos das vias aéreas. Como efeitos adversos produzem boca seca e, em alguns casos, borramento visual.
- Anticolinérgico de longa duração (tiotrópio): apresenta ação broncodilatadora por 24 horas, estando indicado no controle dos sintomas do paciente com DPOC.
- Metilxantinas (aminofilina, teofilina, bamifilina): têm ação broncodilatadora e reduzido efeito antiinflamatório. São utilizadas em pacientes com DPOC refratária a altas doses de CI e broncodilatadores. Seus efeitos adversos mais comuns são: insônia, refluxo gastroesofágico, epigastralgia, hiperatividade em algumas crianças e dificuldade para urinar em homens adultos. A intoxicação aguda apresenta-se com náuseas e vômitos, taquicardia, cefaléia, confusão, hiperglicemia e hipocalemia. O ideal quando se usa a aminofilina ou a teofilina é dosar a teofilinemia, que deve ficar entre 8 e 12 mcg/ml.
- Corticosteróides por via sistêmica (prednisona, prednisolona, deflazacort, hidrocortisona, metilprednisolona): devem ser considerados apenas em casos refratários ao uso combinado de CI e β2-agonistas ou em exacerbações. Produzem efeitos adversos a curto prazo (hiperglicemia, hipertensão, retenção hídrica, ganho de peso e alterações do humor) e a longo prazo (supressão do eixo supra-renal, supressão do crescimento, hipertensão, diabetes, catarata, fraqueza muscular, osteoporose, síndrome de Cushing e imunossupressão).
- Oxigenoterapia contínua (ao menos 15 horas por dia): melhora a sobrevida em pacientes com DPOC selecionados. Tem indicação em pacientes com SpO2 ≤ 88% ou pO2 ≤ 55 mmHg. Em pacientes que já apresentam sinais de cor pulmonale e policitemia, esta indicação se estende para pacientes com pO2 < 60 mmHg.
- Antibióticos (amoxacilina, claritromicina, levofloxacina, por exemplo): direcionados para a infecção respiratória, têm indicação nos quadros de exacerbação infecciosa (expectoração com mudança de aspecto e piora da dispnéia).
- Reabilitação pulmonar (fisioterapia): melhora a qualidade de vida e beneficia todos os pacientes.
- A reabilitação pulmonar, que envolve o treinamento respiratório, exercícios respiratórios e a educação do paciente, melhora a qualidade de vida e a tolerância ao exercício nos pacientes com DPOC.
- Durante quadros de exacerbação grave com retenção de CO2, o uso precoce de ventilação não invasiva melhora a sobrevida dos pacientes com DPOC.
- Todos os paciente com DPOC em qualquer estágio devem realizar vacinação com a vacina para o vírus influenza anualmente antes do inverno. A vacina pneumocócica deve ser ministrada ao menos uma vez durante a vida. A eficácia de ambas as vacinas é maior quando ministradas ao mesmo tempo.
- A cirurgia redutora pulmonar e o transplante de pulmão são opções terapêuticas para pacientes muito graves, mas com condições clínicas de submeterem-se a estas cirurgias.
Medicações usadas no tratamento da DPOC: classificação e dosagem habitual.
|
Classe
|
Medicação
|
Dose habitual
|
|
Corticoesteróide inalatório
|
Beclometasona
|
500-2000 mcg divididos em 2 doses/dia
|
|
|
Budesonida
|
200 a 2000 mcg divididos em 2 doses /dia
|
|
|
Fluticasona
|
100 a 1000 mcg divididos em 2 doses/dia
|
|
|
Ciclesonida
|
160-640 mcg 1 x/dia
|
|
|
Triancinolona
|
500 a 2000 mcg divididos em 3 doses/dia
|
|
β2-agonista de longa duração
|
Formoterol
|
6 a 12 mcg de 12/12 horas
|
|
|
Salmeterol
|
50 mcg de 12/12 horas
|
|
β2-agonista de curta duração
|
Fenoterol
|
2 jatos cada 4-6 horas se necessário
|
|
|
Salbutamol
|
2 jatos cada 4-6 horas se necessário
|
|
Anticolinérgico de curta duração
|
Brometo de ipatrópio
|
2 jatos cada 4-6 horas se necessário
|
|
Anticolinérgico de longa duração
|
Tiotrópio
|
18 mcg 1 x/dia
|
|
Corticoesteróide via oral
|
Prednisona
|
1 mg/kg (máximo 60 mg) VO 1 x/dia
|
|
|
Prednisolona
|
1 mg/kg (máximo 60 mg) VO 1 x/dia
|
|
|
Deflazacort
|
45 a 90 mg VO por dia
|
|
Corticoesteróides endovenosos
|
Hidrocortisona
|
100 mg EV 6/6 horas
|
|
|
Metilprednisolona
|
60 mg EV 6/6 horas
|
|
Metilxantinas
|
Teofilina
|
10-13 mg/kg/dia dividida em 2 doses
|
|
|
Bamifilina
|
600-900 mg de 12/12 horas
|
|
|
Aminofilina
|
Ataque 3-6 mg/kg EV em 100 ml SF em 30 min seguida por manutenção de 0,4 mg/kg/hora
|
Encontre o seu médico
Pneumologista
|