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Síndrome da Imunodeficiência Adquirida

Consultar Doenças - Aids

Definição
Doença causada pelo vírus da imunodeficiência humana tipo 1 (HIV-1), retrovírus com tropismo para células do sistema imune e sistema nervoso central. Acomete particularmente os linfócitos T CD4+.

Etiologia
Vírus transmitido por compartilhamento de agulhas e seringas, transfusão de hemoderiva-dos contaminados, sexual (genital, anal, oral), vertical (intra-uterino, perinatal e aleitamento materno). Foram descritos raros casos de trans-missão com materiais perfurocortantes em acidente com material biológico. Após contato sexual, o HIV infecta células dendríticas da mucosa. Essas células apresentam o vírus para linfócitos T CD4+ da lâmina própria de linfonodos periféricos a partir dos quais atinge a corrente sangüínea, com disseminação para todo o organismo. A doença é conseqüência principalmente da destruição e disfunção dos linfócitos T CD4+, embora as outras células do sistema imune também sejam afetadas. O próprio vírus pode também causar doença (exemplo SNC). Atualmente cerca de 40 milhões de pessoas vi-vem com infecção transmitida pelo HIV/Aids no mundo. A maior parte (95%) vive nos países em desenvolvimento, sendo que a África é responsável por 63% dos casos. No Brasil, estima-se que 620 mil pessoas estejam infectadas pelo vírus, com maior concentração na região Sudeste. Inicialmente restrita aos chamados “grupo de risco”, atualmente a doença se disseminou pela sociedade, havendo tendência de heterossexualização, feminização, interiorização e pauperização da epidemia.

 

Clínica
Após 1 a 6 semanas do contato com vírus, 40 a 90% dos pacientes apresentam quadro clínico de infecção aguda pelo HIV. Caracteriza-se por febre, adenomegalia generalizada, faringite, exantema cutâneo, mialgia, cefaléia, diarréia, náusea/vômitos e hepatoesplenomegalia. A doença aguda pelo HIV é diagnóstico diferencial da síndrome mononucleose símile. As manifestações agudas da doença são transitórias, seguindo-se de período assintomático/ oligossintomático, a fase de latência clínica. Esse período dura, na maioria dos pacientes, de 8 a 10 anos, durante o qual há depleção progressiva de linfócitos T CD4+. Algumas manifestações clínicas podem ser observadas nessa fase: linfadenopatia generalizada persistente, candidíase oral, candidíase vulvovaginal de repetição ou de difícil resposta ao tratamento, anemia, púrpura, herpes-zóster, dermatite seborréica e leucoplasia pilosa. Com o avanço da imunodepressão, o paciente atinge nível crítico de contagem de linfócitos T CD4+, permitindo o desenvolvimento de doenças oportunistas, caracterizando a fase de Aids. As doenças definidoras de Aids são:

  • Câncer cervical invasivo.
  • Candidíase esofágica.
  • Candidíase de traquéia, brônquios ou pulmões.
  • Citomegalovirose:
    • retinite;
    • esofagite;
    • colite;
    • pancreatite;
    • pneumonite;
    • meningoencefalite;
    • formas disseminadas.
  • Criptococose extrapulmonar.
  • Criptosporidiose intestinal crônica (> 1 mês).
  • Herpes simples mucocutâneo (> 1 mês).
  • Histoplasmose disseminada.
  • Isosporidiose intestinal crônica (> 1 mês).
  • Leucoencefalopatia multifocal progressiva.
  • Linfoma não Hodgkin de células B.
  • Linfoma Burkitt ou não Burkitt.
  • Linfoma primário de sistema nervoso central.
  • Pneumonia por P. jiroveci.
  • Micobacteriose disseminada.
  • Reativação de doença de Chagas.
    • Meningoencefalite.
    • Miocardite.
    • Sarcoma de Kaposi.
    • Sepse recorrente por Salmonella (não tifóide).
    • Tuberculose extrapulmonar ou disseminada.
    • Neurotoxoplamose.

 

 

Diagnóstico

  • Infecção aguda: geralmente a sorologia é negativa nessa fase. Na suspeita de infecção aguda, deve-se realizar o diagnóstico por métodos moleculares (PCR, Nasba, b-DNA) e realizar a sorologia 2 meses após início dos sintomas.
  • Fase de latência clínica e de Aids:
  1. Triagem sorológica com teste de ELISA 1. O resultado negativo exclui o diagnóstico (exceto doença aguda).
  2. Na presença de teste positivo ou inconclusivo, realizar ELISA 2 (kit diferente) e teste confirmatório (imunofluorescência ou imunoblot) na mesma amostra.
  3. Em caso de resultado positivo no ELISA 2 e no teste confirmatório, colher segunda amostra para novo ELISA. Esse teste positivo confirma o diagnóstico.
  4. Em caso de discordância entre os resultados dos três testes (ELISA 1, ELISA 2, imunofluorescência ou imunoblot), realizar teste de Western-blot.
  5. Em caso de Western-blot positivo, colher segunda amostra para novo ELISA. Esse teste positivo confirma o diagnóstico.
  6. Em caso de Western-blot negativo ou inde­terminado, investigar soroconversão (repetir o teste após 4 semanas).

 

Tratamento
A terapia anti-retroviral é recomendada para pacientes com diagnóstico de doenças defi­nidoras de Aids e/ou contagem de linfócitos T CD4+ inferior a 200 cél/mm3 Pacientes assintomáticos com contagem de linfócitos T CD4+ entre 200 a 350 cél/mm3 devem ser avaliados caso a caso, a depender da evolução de seus parâmetros imunológicos e virológicos, além de outras características clínicas do pa­ciente, como co-infecções e comorbidades.

Atualmente estão disponíveis 5 classes de medicações anti-retrovirais: inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN), inibidores da transcriptase reversa não análogos de nucleosídeos (ITRNN), inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleotídeos (ITRNt), inibidores da protease (IP) e inibidor de fusão (IF).

O tratamento anti-retroviral inicial geralmente é composto de três drogas: dois ITRN associados a um ITRNN ou a um IP. A escolha do esquema depende de gravidade da doença, adesão do paciente, posologia, toxicidade e presença de co-infecções e comorbidades.

A complexidade da prescrição correta de anti-retrovirais e do acompanhamento de pacientes com infecção pelo HIV/Aids torna necessária consulta às “Recomendações para Terapia Anti-retroviral em Adultos e Adolescentes Infec­tados pelo HIV” do Ministério da Saúde. Essas sugestões são anualmente revisadas e estão disponíveis em: http://www.aids.gov.br.

Quadro clínico, diagnóstico, tratamento e profilaxia de doenças oportunistas

Agente Quadro clínico Diagnóstico Tratamento Profilaxia
Candida spp *Candidíase oro-esofágica *Lesões orais pseudomembranosas, eritematosas, hiperqueratósica e queilite angular*EDA-placas esbranquiçadas *Fluconazol 100 a 400 mg VO ou EV 1 x/d por 7 a 21 dias*Itraconazol 200 mg 1 x/d por 7 a 21 dias*Nistatina 4 a 6 ml de 6/6 horas bochecho (lesão oral) __
CMV *Coriorretinite *Esofagite  *Colite  *Pneumonite  *Meningoencefalite*Mielite  *Polirradiculopatia *Fundo de olho: exsudato necro-hemorrágico;* EDA- úlceras esofágicas com inclusões virais ou IH positiva no AP;* Colonoscopia- úlceras colônicas com inclusões virais ou IH positiva no AP;*Biópsia pulmonar com inclusões virais ou IH positiva no AP*Pleocitose com PCR positivo no LCR*RNM- lesões geralmente sem efeito de massa com hiper-sinal em T2 *RNM espessamento de nervo Retinite*Ganciclovir 5 mg/kg EV 12/12hs por 14 a 21 dias*Valganciclovir 900 mg VO 12/12 horas por 14 a 21 dias* Foscarnet 90 mg/kg EV 12/12hs por 14 a 21 dias* Implante intra-ocular de ganciclovir + gancilcovir 5 mg/kg EV 12/12 horas por 14 a 21 dias. Outras formas de CMV*Ganciclovir 5 mg/kg EV 12/12 horas por 14 a 21 dias Retinite*Ganciclovir 5 mg/kg 1 x/d*Foscarnet 90-120mg/kg EV 1 x/d*Valganciclovir 900 mg VO 1 x/d *Implante intra-ocular de liberação lenta de ganciclovir a cada 6-9 meses + ganciclovir 1,0-1,5 g VO 12/12 horas.
Cryptococcus spp *Meningite        *Disseminado *Cutâneo *LCR com celularidade normal ou aumentada, hiperproteinorraquia, glicorraquia normal ou diminuída. Tinta da China positiva, Látex positiva.*Hemocultura/mielocultura positiva*Biópsia com lesão granulomatosa e presença do fungo Ataque *Anfotericina B 0,7 mg/kg/d ou Anfotericina B lipossomal 4 mg/kg/d EV 1 x/d ou Fluconazol 400-800 mg/d VO ou EV+/-*5-flucitosina 25 mg/kg/d dividida em 6/6 horas por pelo menos 2 semanasFase de consolidação: Fluconazol 400 mg/d ou Itraconazol 200 mg VO 1x/d (para casos de intolerância ou falha a fluconazol) por pelo menos 8 semanas até negativação da cultura no líquor. *Fluconazol 200 mg/d VO ou*Itraconazol 200 mg/d VO
Cryptosporidium  Ver diarréia crônica do imunodeprimido
Histoplasma capsulatum  Ver histoplasmose
Isospora belli  Ver diarréia crônica do imunodeprimido 
MAC * Doença disseminada (hepatoesplenomegalia, pancitopenia, adenomegalia generalizada, acometimento intestinal e cutânea). *Hemocultura, mielocultura ou cultura de fezes para micobactéria*Biópsia com granuloma e BAAR positiva  *Claritromicina 500mg VO 2 x/d + etambutol 15 mg/kg/d 1 x/d*Azitromicina 500mg VO 1x/d + etambutol 15 mg/kg/d 1 x/d*Associação de outras drogas em casos de maior gravidade: rifampicina 600 mg/d ou ciprofloxacina 500 – 750 mg VO 2 x/d ou levofloxacina 500 mg VO 1 x/d ou amicacina 10-15 mg/kg EV 1x/d. Primária*Azitromicina 1200 mg VO 1 x/sem ou claritromicina 500 mg VO 2 x/d

Secundária

*Azitromicina 500 mg VO 1 x/d ou claritromicina 500 mg VO 2 x/d+Etambutol 15 mg/kg/d 1 x/d
Mycobacterium tuberculosis *Pulmonar*Meningoencefalite*Ganglionar* Disseminada *Pesquisa e cultura de micobactérias em secreções respiratórias, tecido*Hemocultura e mielocultura para micobactérias*Urocultura para micobactérias*LCR - pleocitose mista, hiperproteinorraquia, hipoglicorraquia, ADA > 4,0 UI/L*Biópsia com granuloma e BAAR positiva  Ver tratamento de tuberculosePaciente em uso de isoniazida, associar piridoxina 50 a 100 mg/d. Rifampicina pode ser utilizada apenas com os ITRN e efavirenz. Se PPD ≥ 5mm, isoniazida 300 mg VO 1 x/d por 6 meses (afastar doença em atividade)
Microsporidium  Ver diarréia crônica do imunodeprimido
Pneumocistose ∆ *Pneumonia *Pesquisa direta e PCR em secreções respiratórias*Biópsia pulmonar com infiltrado eosinofílico espumoso com presença do agente e espessamento de septos inter-alveolares e interlobulares. *SMX/TMP (75-100 mg/kg/d SMX e 15-20 mg/kg/d TMP) EV ou VO por 21 dias. *Pentamidina 4mg/Kg/d EV *Dapsona 100 mg VO 1 x/d + TMP 15 mg/kg/d (dividir 8/8hs)*Primaquina 15-30 mg (base) VO 1 x/d + clindamicina 600 mg EV 6/6hs *SMX/TMP (480 mg a 960 mg) VO 1 x/d diária*Pentamidina 300 mg inalatória *Dapsona 50 mg VO 1 x/d + pirimetamina 50mg VO 1 x/sem + ácido folínico 25 mg VO 1 x/sem
Toxoplasma gondii♦ *Meningoencefalite*Coriorretinite *TC de crânio com lesões hipoatenuantes com efeito de massa e realce anelar*RNM com duas ou mais lesões com hiposinal em T1 e com realce anelar ao exame contrastado.*Melhora radiológica após 2 semanas de tratamento empírico*Sorologia e/ou PCR positivos para T.gondii (IgG) reforçam o diagnóstico *Sulfadiazina VO 100 mg/kg/d de 6/6hs ou *Clindamicina 600 mg VO ou EV 6/6hs ou *SMX/TMP (25 mg/kg SMX) EV ou VO 12/12 horas ou*Azitromicina 900 a 1200 mg VO 1 x/d + *Pirimetamina 50 mg VO no primeiro dia e 25 mg/d nos dias subseqüentes + ácido folínico 15 mg/d por pelo menos 6 semanas. Profilaxia primária*SMX/TMP 960 mg VO 1 x/d *Dapsona 50 mg VO 1 x/d + pirimetamina 50 mg 1 x/sem + ácido folínico 15 mg VO 1x/semProfilaxia secundária*Sulfadiazina 500-1000 mg VO 6/6 horas 1x/d ou*Clindamicina 300-450 mg VO 8/8 ou 6/6 horas + pirimetamina 25 mg 1 x/d + ácido folínico 15 mg

∆ Se PaO2 < 70 mmHg ou P(A-a) O2 > 35 mmHg - prednisona 40 mg 2 x/d por 5 dias, 40 mg/d por mais 5 dias e 20 mg/d até o término do tratamento.

♦ Dexametasona é indicada em casos de edema ou efeito de massa importante secundária à lesão. Deve ser descontinuada logo que possível. Anti-convulsivantes devem ser administrados em casos de relato de convulsões.

EDA = endoscopia digestiva alta
IH = imuno-histoquímica
AP= anátomo-patológico
PCR = Reação em cadeia por polimerase
LCR = Líquor
RNM = Ressonância nuclear magnética
MAC = Complexo Mycobactedrium avium-intracellulare
TC = Tomografia computadorizada

 

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